A ação em parceria com o projeto CineB Universidade trouxe para o campus Vila Mariana a série Causando na Rua, de Tata Amaral.
Reportagem: Felipe Ribeiro
Com o objetivo de democratizar o acesso ao cinema brasileiro e de promover discussões acerca da produção audiovisual, o projeto CineB Universidade realizou, na quinta-feira, 20 de março, a exibição de dois episódios da série documental Causando na Rua, intitulados Viajou Sem Passaporte, 3NÓS3 e TUPINÃODÁ e Festival Disco Xepa por Slow Food ComoComo (veja abaixo um resumo das apresentações dos filmes).
A diretora, Tata Amaral, também esteve presente e após a exibição, realizada no auditório do campus Vila Mariana da FIAM FAAM Centro Universitário, participou de uma roda de conversa com os membros do CineB, professores e discentes. Integraram a mesa, além da diretora, os professores Jorge Gonçalves de Oliveira Júnior e Isabella Regina Goulart, além do coordenador do CineB, Cidálio Vieira Santos.
A produção é dividida em 13 episódios que acompanham grupos ou coletivos que veem na rua um espaço de comunicação, música ou manifestação artística. Seu foco é problematizar a ocupação dos espaços públicos e trazer novas possibilidades de manifestação e uso das ruas.
O estudante Matheus Cerullo contou à nossa redação suas expectativas e impressões sobre a exibição de filmes nacionais. “Eu estava esperando um documentário mais básico, não sabia que teria tanto conteúdo assim, que falaria das questões artísticas, das intervenções pela cidade, achei muito interessante a proposta do documentário”, compartilhou. A respeito do debate que ocorreu após a sessão, Cerullo foi incisivo: “Achei o pessoal bem interessado na questão política dos documentários, na repercussão que eles trazem como reflexões.”
“Viajou Sem Passaporte, 3NÓS3, e TUPINÃODÁ”
Por Ingrid da Cruz
O primeiro episódio, intitulado “Viajou Sem Passaporte, 3NÓS3 e TUPINÃODÁ”, conta a história de três grupos de ativistas que deram origem às manifestações em espaços públicos da cidade de São Paulo.
Esses grupos tiveram o auge de suas atuações na época da ditadura e, mesmo sofrendo com a pressão do governo e com a censura prévia, não deixavam de mostrar sua insatisfação com a forma de governo e iam às ruas pedir por seus direitos.
O primeiro episódio da série ainda traz relatos de ativistas da época, pertencentes a esses coletivos, que contam experiências pessoais vividas nas ruas da capital paulista.
“Festival Disco Xepa por Slow Food ComoComo”
Por João Victor Almeida
Na segunda e última exibição da noite, foi ao ar o episódio 6 da série, que retrata o Slow Food, movimento que valoriza a qualidade dos alimentos, a sustentabilidade e o prazer de comer.
A produção acompanhou o coletivo ComoComo, que realiza o Festival Disco Xepa, uma ação internacional que promove em feiras livres a criação de banquetes com alimentos descartados por suas aparências desgastadas em feiras livres, fazendo uma reflexão sobre o índice elevado de desperdícios de alimentos nas cidades.
O episódio é focado nas regiões centrais da cidade de São Paulo, com grande foco no bairro Santa Cecília, e o local de origem do grupo na Vila Anglo Brasileira, zona oeste da cidade.
Ocupação da Rua
Por Clara Garcez

Tata Amaral foi categórica ao explicar o que a motivou a criar a série Causando na Rua: “A rua sempre foi um lugar de ocupação e encontro para mim, mas percebi que tem se tornado cada vez menos usada para este sentido. Por isso tive a iniciativa de procurar ações de diversos coletivos que, de maneiras diferentes, usam esse espaço. E quem procura acha.”
A diretora compartilhou com os presentes um pouco de seu processo na produção da série documental, como a busca por diferentes atores sociais e os seus critérios, procurando trazer ações em todas as regiões de São Paulo e a vontade de representar vários tipos de arte e manifestações culturais.
Além disso, comentou sobre suas dificuldades, principalmente a de encontrar fontes. “Quando começamos o projeto, usamos muitas bases de dados do governo. Em 2016, no início do governo Temer, muitas dessas bases saíram do ar, o que mostra a importância dos dados para a democracia”, afirmou. Esses dados entraram nos episódios por meio de intervenções, trazendo datas de eventos importantes e números que auxiliam no entendimento da narrativa criada.
Ainda sobre o processo democrático, Amaral também ressaltou como a rua era vista como um lugar proibido na ditadura. “Não podíamos nos reunir em mais de três pessoas que já éramos considerados suspeitos”, afirmou. Segundo ela, iniciativas como o Causando na Rua promovem uma reflexão nos espectadores, trazem não apenas as manifestações artísticas, mas comentários de especialistas, problematizando e inserindo-as em um contexto claro, a fim de exercitar o pensamento crítico de quem assiste.
Um dos alunos do curso de audiovisual que assistiu a exibição dos documentários comentou que “é possível encontrar inspiração para os seus produtos no cotidiano”, o que foi corroborado pela diretora: “Eu ando na rua, percebo o que é feito, e quero compartilhar com o público que existem outras maneiras de estar na cidade. Principalmente em São Paulo, cidade de uma riqueza de coletivos estonteante”, completou Tata Amaral.
Projeto CineB e a democratização do cinema
Por William Oliveira

O coordenador do Cine B, Cidálio Vieira Santos, disse que com esta exibição na FIAM FAAM foi possível entender melhor a origem, o impacto e os objetivos do projeto, além de perceber a qual público é destinado. Criado em 2007, o CineB surgiu em parceria com o Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região, presidido na ocasião por Ivone Silva.
Segundo Cidálio, além de lutar pelos direitos dos trabalhadores, “o sindicato também se dedica a levar cultura e lazer para as comunidades, democratizar o acesso à cultura e divulgar o cinema brasileiro tanto para os bancários quanto para a comunidade em geral”. Ele esclareceu que o projeto não recebe incentivos governamentais, como os previstos na Lei Rouanet e na Lei Paulo Gustavo (LPG).
De acordo com Cidálio, não houve necessidade de receber incentivos federais porque o sindicato apoia o projeto e foi aprovado por maioria. “Portanto, não recebemos incentivos governamentais; é o sindicato que financia o projeto para que possamos executá-lo. Não enfrentamos dificuldades; pelo contrário, só temos elogios ao Sindicato dos Bancários por apoiar essa iniciativa, assim como à Brasuca”, destacou o coordenador.
Cidálio também celebrou o reconhecimento mundial do cinema brasileiro, impulsionado pela vitória do filme Ainda Estou Aqui, dirigido por Walter Salles, no Oscar de Melhor Filme Internacional. Com o destaque na premiação, o cinema brasileiro ganhou mais visibilidade, sendo reconhecido internacionalmente. “O CineB tem contribuído muito para esse movimento”, afirma Cidálio.
Segundo ele, há 18 anos o CineB leva o cinema às periferias e já exibiu mais de 500 filmes para um público de 100 mil pessoas. “Muitas delas passaram a valorizar o cinema nacional após conhecerem o projeto. Com a democratização do cinema possibilitamos que mais pessoas descubram e apreciem os filmes brasileiros”, concluiu Cidálio.