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Projeto SP Sem Fome: “Ninguém pode ajudar todo mundo, mas todo mundo pode ajudar alguém”

Ajudar pessoas já era algo muito importante e se tornou uma causa ainda maior nesse momento de pandemia, por isso, é  importante reconhecer e contar um pouco da história e do trabalho de quem já lutava para ajudar o próximo bem antes disso.

Por Agatha Menes [1],  Bárbara Nakashima  [2],

 Lucas Cruz [3], Lucas Fagundes [4]

Edição por Giuliana Maciel [5]

Supervisão do Prof. Guy Almeida [6]

Reportagem elaborada na disciplina Jornalismo Local e Esportivo

Ana Luiza Kamoto, de 27 anos, nascida em Ribeirão Pires – SP, é a fundadora do projeto SP Sem Fome. Sua ideia inicial surgiu quando começou a trabalhar na região da Paulista, em São Paulo.

O SP Sem Fome é um projeto social independente, sem fins lucrativos ou vínculos políticos e religiosos. Está desde 2015 realizando ações em prol de pessoas que vivem em situação de rua na cidade de São Paulo.

Com a chegada da pandemia, o projeto também começou a ajudar as comunidades mais carentes, com cestas básicas e produtos de limpeza. Entrevistamos a Ana Luiza para entendermos um pouco mais sobre o projeto e essa iniciativa na vida dela.

Como surgiu o projeto SP Sem Fome e por que você decidiu criá-lo?

A verdade é que foi algo muito natural, não algo pensado. Eu morava em São Caetano onde não era comum ver pessoas em situação de rua, mas quando vim trabalhar em São Paulo, comecei a encontrar pessoas nas ruas, principalmente famílias. Muitas dessas pessoas vinham me pedir comida no meio da rua. Eu e minha amiga, a Carol, nos solidarizamos com aquilo. Um dia nós duas decidimos começar a entregar comida nas ruas. Fizemos um evento no Facebook para arrecadar dinheiro e levar comida para as pessoas necessitadas. Eu criei um logo, demos um nome, criamos uma página no Facebook e a partir da segunda entrega incorporamos o projeto.

Quando você percebeu que o projeto estava crescendo e saindo desse núcleo de amizades?

Desde a primeira entrega muitas pessoas já compareceram, sejam elas amigos de amigos ou conhecidos, depois disso só foi aumentando. Na nossa primeira entrega havia 12 pessoas, na segunda 30, na terceira entre 30 e 40 pessoas, porém tudo entre amigos. O dia que eu percebi que o projeto impactou várias pessoas foi em junho de 2016, quando muitas pessoas em situação de rua haviam morrido de frio e isso foi televisionado. Na nossa entrega SP Sem Fome e SP Sem Frio, 120 pessoas apareceram.

 

 

Além do voluntariado, vocês já receberam propostas de patrocínio de empresas?

Sim, sempre há interessados, porém, ainda somos um projeto independente. Estamos no processo de formalização para ser uma ONG, mas, por conta de não possuirmos um CNPJ fixo, 99% de nossas doações são de pessoas físicas.

São Paulo é a décima cidade mais rica do mundo e mesmo assim há centenas de pessoas em situação de rua. Você acredita que isso seja por conta de uma alienação dos cidadãos em relação à população mais vulnerável, ou isso se dá por conta do mito que as pessoas em situação de rua levam, de que são bandidos, usuários de drogas e não merecem ajuda?

Não existe uma resposta correta para isso, São Paulo realmente é uma cidade que gera grande lucro, mas muito disso se dá porque uma minoria ganha muito dinheiro, enquanto uma maioria ganha pouco dinheiro. É apenas um grupo seleto que eleva o patamar de São Paulo.

Acredito que existam vários motivos: não há um bom programa do governo para poder minimizar essa situação, muitas pessoas acabam vindo de estados mais pobres à procura de empregos aqui em São Paulo, muitos não conseguem emprego e não possuem dinheiro para se manter, por isso, acabam ficando em situação de rua. Existem muitas pessoas que estão ali por conta de vícios e outras simplesmente perderam a  perspectiva e vão morar na rua.

Muitos moradores de rua não gostam de ficar em albergues, em seu convívio com a população de rua, você consegue entender o motivo disso?

Os Albergues são lugares específicos para as pessoas não dormirem nas ruas, mas existem certas regras. Para entrar no albergue é necessário ficar em uma fila desde às 14 horas da tarde. Existe hora para dormir, hora para tomar banho e até hora para sair. A maioria das pessoas não quer ter este trabalho todo e seguir todas estas regras, preferindo ficar na rua mesmo. De qualquer forma, não há respostas concretas para este tipo de assunto.

Você notou algum tipo de amparo do governo para essas pessoas de rua durante a pandemia?

Não de forma massiva, não houve preocupação de isolar essas pessoas, de proporcionar um atendimento diferenciado. De forma efetiva não houve grandes mudanças.

Entrando no outro projeto, SP Sem Fome nas comunidades, isso vocês já estavam pensando em fazer ou foi algo que surgiu durante a pandemia?

Foi como se fosse uma conspiração do universo, acredito eu. Por mais que tenha sido por um motivo ruim, na primeira reunião com o grupo em janeiro de 2020, quando não havia pandemia, uma das minhas metas para aquele ano era começar atuar em comunidades, levando cesta de alimentos. Quando veio a pandemia, não tínhamos como ir às ruas, e surgiu a ideia de começarmos a adentrar as comunidades para levar cestas básicas.

Quantas pessoas participam do projeto atualmente e como outras podem participar?

 

Hoje nós temos duas frentes, o SP Nas Comunidades, que acontece no último domingo do mês, e o SP Sem Fome, nas ruas, que acontece no penúltimo domingo do mês. Tanto para um quanto para outro nós temos um processo de triagem onde o voluntário se inscreve, respondendo perguntas como “você é do grupo de risco?”, “mora ou trabalha com alguém deste grupo?”. Assim sabemos

quais são os riscos que essa pessoa tem ao ir para o projeto e os riscos que ela pode levar para casa ou trabalho.

Estávamos selecionando cerca de 20 voluntários para as ruas e 10 para as comunidades. A maioria das pessoas que eram selecionadas tinham carro, moravam sozinhas ou trabalhavam em home office, para que não comprometesse a saúde de ninguém.

O que tem nas cestas e como adaptaram para a pandemia?

A gente incluiu produtos de limpeza como cândida, sabonete e detergente. Isso a gente fez por conta da pandemia, para poderem ter o  mínimo possível para se higienizar e manter a higiene da casa.

A cesta de alimentos é completa, são alimentos básicos, como arroz, feijão, fubá – que tem uma sustentação maior – óleo, café, sal, molho, macarrão. São coisas básicas para poderem se alimentar.

Gostaríamos de colocar uma bolacha, um chocolate, gelatina, porém infelizmente não conseguimos por conta de preços, nesta pandemia os alimentos estão muito mais caros.

 Com a pandemia, as doações diminuíram muito?

Não. Na verdade, depende muito do mês, mas de uma forma geral se manteve. Todas as nossas metas foram alcançadas, por conta, também, dos novos voluntários que acharam o projeto durante a pandemia. Em alguns meses acabamos estendendo o tempo das metas porque não foram alcançadas, mas, de forma geral, não diminuiu, contamos sempre com diversas ajudas.

 Quando vocês vão às comunidades, as crianças estão recebendo o auxílio da merenda escolar?

Na verdade, não era certo. Em algumas creches de comunidades que fazíamos doações, havia sim a doação de cestas por parte dessas escolas, o que nos ajudava muito. Mas em relação à merenda, não. Só quando teve uma queda na pandemia que as crianças voltaram para a escola que elas recebem a merenda. Isso são casos pontuais, percebi que algumas creches se movimentavam para fazer essas doações às famílias, e tem outras que já davam antes da pandemia.

As famílias que não têm crianças estão recebendo algum auxílio do governo, além do auxílio emergencial, ou não?

Não. A grande maioria das famílias que conversamos estava recebendo o auxílio emergencial, isso já era de grande ajuda, só que também tinham pessoas que não tinham esse benefício. Aquelas que não eram instruídas para conseguir obter esse benefício, a gente tentou auxiliá-las para que conseguissem o valor, mas de maneira geral as comunidades tinham uma ajuda vinda de projetos sociais que doavam outras cestas aos moradores.

No começo da pandemia foi bem triste, pois diversas pessoas perderam seus empregos. Estamos tratando de situações bem diferentes, onde a pessoa de rua não tem nada, mas a de comunidade tem uma renda, uma casa só que de forma humilde. Essas pessoas antigamente tinham seus trabalhos, só que com a chegada da pandemia, tudo fechou, fazendo com que elas ficassem sem ter o que comer.

 

Porque vocês escolheram o centro de São Paulo e como vocês escolhem as comunidades que ajudam?

Nas ruas, o centro de São Paulo foi o escolhido porque lá eu imaginava que era concentrado o maior número de pessoas em situação de rua. Só que temos planos de expandir para outras regiões, porém por conta da pandemia esse objetivo foi adiado para quando acabar.

Nas comunidades, as escolhas são muito naturais também, lá no início, as pessoas vieram pedir ajuda da SP Sem Fome e nós conversamos com os líderes de comunidades e firmamos parcerias para ajudar eles. No começo da pandemia a gente estava ajudando cerca de 5 comunidades por mês, só que a gente viu que isso não era o real propósito do projeto.

Nós não queríamos apenas entregar as cestas, nós queríamos conhecer aquelas famílias que iriam recebê-las. Dessa forma, no final do ano passado a gente passou a ajudar apenas duas comunidades, a Favela do Moinho e a comunidade da Rua 5, uma no centro e a outra no Jabaquara. A gente fez isso para sempre poder estar lá, ajudar as mesmas pessoas e criar um laço com elas.

Agora criamos uma espécie de documento para que os voluntários saibam a quem eles estão ajudando. Nesse documento estão os dados daquela família, quantas pessoas moram com ela, datas dos aniversários, quais as dificuldades que enfrentam.

Sabendo esses pontos a gente consegue ajudar de forma mais efetiva até o dia que eles não precisem mais da nossa cesta básica.

Quem pode ajudar a instituição?

O principal jeito de nos ajudar é seguindo a gente nas redes sociais porque lá é onde colocamos tudo o que precisamos. Hoje nós estamos recebendo apenas dinheiro para as doações através da plataforma Abacaxi, lá é nossa única fonte de arrecadação, até porque conseguimos ter transparência nos valores, mostrando o quanto já recebemos de doações. Por isso, acompanhar as redes é mais fácil para o voluntário fazer sua doação. A partir do mês que vem já vamos começar a não só aceitar valores, mas também alimentos.

Qual sua mensagem com o SP Sem Fome?

Acho que só o slogan do projeto já é uma mensagem “ninguém pode ajudar todo mundo, mas todo mundo pode ajudar alguém”. Eu acredito que são os três objetivos do projeto, eu sempre falo em toda a entrega de doações. O primeiro objetivo do projeto é enxergar a desigualdade social, o segundo é conscientizar e o terceiro é levar a doação até as pessoas e entender o que elas precisam realmente.

[1] Aluna do curso de Jornalismo FMU/FIAM FAAM

[2] Aluna do curso de Jornalismo FMU/FIAM FAAM

[3] Aluno do curso de Jornalismo FMU/FIAM FAAM

[4] Aluno do curso de Jornalismo FMU/FIAM FAAM

[5] Aluna do curso de Jornalismo FMU/FIAM FAAM, estagiária AICOM – editora

[6] Professor do curso de Jornalismo FMU/FIAM FAAM, ministrante da disciplina Jornalismo Local e Esportivo