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O NEGRO VISTO ALÉM DO EUROCENTRISMO E A MULHER NO MERCADO DE TRABALHO SÃO TEMA DA SALA DE LEITURA BEATRIZ NASCIMENTO

Evento online aberto a estudantes da FIAMFAAM recebeu pesquisadoras para discutir a obra da escritora sergipana homenageada pelo NERA

Por Arthur Vieira Beserra [1]
Revisão por Maria Lúcia [2]
Supervisão de Prof. Guy P. Junior [3]
Profa. Nicole Morihama [4]

O terceiro encontro realizado pela Sala de Leitura Beatriz Nascimento aconteceu neste sábado (24/05) e contou com a presença de Fabiana Teixeira, formada em Direito, especialista em mediação de conflitos e pesquisadora do direito e dos movimentos sociais, e de Necy Teixeira, formada em Letras, com especialização em educação de jovens e adultos pela PUC-SP, consultora em aprendizagem organizacional e facilitadora de aprendizagem e processos de cocriação. 

O evento, que é realizado pelo Núcleo de Estudos Étnico-Raciais (NERA) da FMU – FIAAMFAAM, foi mediado pela professora Maria Lúcia da Silva e abordou o livro Eu sou Atlântica – Sobre a trajetória de Beatriz Nascimento, de Alex Ratts (Imprensa Oficial e Instituro Kuanza, 2006), tendo como destaque seus artigos “Por uma história do homem negro” e “A mulher negra no mercado de trabalho”.

Sobre o primeiro, Fabiana Teixeira conta que um evento marcou a história de Beatriz Nascimento, quando, certa vez, um pesquisador branco lhe confrontou dizendo que era mais preto do que ela por ter estudado o candomblé enquanto ela além de não desta crença, também não usava cabelo afro. “Se um jovem loiro burguês e intelectualmente brilhantíssimo, após apenas alguns anos de estudos sobre uma de nossas manifestações culturais, chegar à conclusão de que é mais preto que eu, o que é que eu sou?”, foi a reflexão de Beatriz. Fabiana diz que isso mexeu muito com a autora, mas que ao mesmo tempo a despertou para o desafio de contar a história do negro de forma fiel, sem se ater aos tecnicismos e cientificismo que moldou o pensamento nos séculos XIX e XX e que limitou a história do negro ao campo da escravidão e da pobreza, além de uma folclorização de seus costumes e crenças. 

Para reforçar o que chama de algo vil, realça ainda que a autora em seu artigo relata que a própria análise cultural feita por homens brancos sob a ótica de conceitos eurocentristas, pode demonstrar o complexo de inferioridade destes com relação à própria identidade brasileira. “É preciso entender que o negro não é um objeto distante… Nos compartilhamos da mesma cama e do mesmo prato”, resume. Para ilustrar sua apresentação, a pesquisadora Fabiana trouxe a música “Vá cuidar da sua vida”, de Geraldo Filme, cuja letra mostra que o que era parte da identidade negra só passa a ser “validado” quando apropriado por um branco, como a capoeira. 

Em sua apresentação, Necy Teixeira aborda o papel da mulher negra no mercado de trabalho e traça um paralelo entre o texto de Beatriz e a realidade presente nos tempos atuais. Iniciando com o trecho de um texto de Lélia Gonzales sobre a formação das sociedades hierárquicas, onde afirma que não é possível ter igualdade dentro de uma divisão classial assim, ela lança mão de dados e notícias disponíveis online para mostrar que mecanismos nem sempre explícitos limitam as oportunidades e a consequente mobilidade social que até existe, mas se torna cada vez mais difícil dependendo, por exemplo, da cor da pele. 

A análise contínua ao mostrar que historicamente a mulher negra já ocupa uma posição de trabalho desde os tempos coloniais, mas na casa de família, no campo ou na concepção de filhos que, na visão de seus senhores, são apenas a geração de mais força de trabalho. Já a mulher branca, sempre teve o papel da mulher e mãe e só praticamente a partir da segunda metade do século XX conquistou o direito ao trabalho. 

Os dados, no entanto, mostram que mesmo conquistando este direito depois das negras, as mulheres brancas têm melhores salários e condições educacionais. Enquanto uma branca recebe em média R$ 957,00 e 24% possuem curso superior, o rendimento médio de uma mulher negra é de R$ 544,40 e apenas 10% cursaram faculdade segundo os dados mostrados por Necy.

Isso é resultado da chamada herança escravocrata, segundo o artigo de Beatriz: “A ‘herança escravocrata’ sofre uma continuidade no que diz respeito à mulher negra (…) Se a mulher negra permanece ocupando empregos similares aos que ocupava na sociedade colonial, é devido também por terem sido escravos seus antepassados”. Desenvolvendo esta ideia, Necy cita outros dados que mostram que a mulher negra, apesar de sua etnia representar a maioria da população, são as mais vulneráveis tanto no lado da economia quanto da segurança doméstica. 

Embora lutem contra isso buscando qualificação profissional, continuam sendo vítmas da discriminação em anuncios pejorativos de bebidas alcoólicas, cosméticos e até peças governamentais. Para completar, em alguns casos, a justiça negou o pedido de indenização por julgar que tal anúncio era uma forma irreverente de vender o produto.

Como parte de sua reflexão, Necy cita o livro de Rachel Maia “Meu Caminho até a Cadeira Número 1”, e diz: “O quanto será que esta mulher deve ter sido obrigada a se embranquecer (aceitar os mecanismos para ascender) antes de poder retornar a sua negritude?”.

No próximo encontro (08 de maio), o tema será “Revisitando o conceito de quilombo” e receberá a doutora em História IFCH/UNICAMP Mariléa de Almeida.

[1] Aluno do curso de Jornalismo FMU/FIAM-FAAM, estagiários AICOM – repórter
[2] Professora do Curso de Jornalismo FMU/FIAM-FAAM
[3] Professor do Curso de Jornalismo FMU/FIAM-FAAM, supervisor de estágios AICOM
[4] Professora e coordenadora do Curso de Relações Públicas e Jornalismo FMU/FIAM-FAAM